quarta-feira, 15 de abril de 2009

MEDICINA NO SERVIçO PUBLICO - SALARIO RUIM E FALTA DE CONDIçÕES DE ATENDIMENTO AO POVO.

.-.-.-.-.-.-.- NOSSA VOZ É NOSSA VEZ : O DESABAFO DO DOUTOR .-.-.-.-.-.-.-.-.
Aos médicos brasileiros, aos nossos representantes parlamentares (Senadores, deputados, vereadores), ao Presidente Lula, Ministros, Governadores e Prefeitos, aos gestores públicos da Saúde, a todos os brasileiros que se interessam pela Política e pela saúde pública, seria recomendada a leitura da carta de um colega, que transcrevemos abaixo. Ela aborda de forma clara e sem rodeios ou figuras de retórica, as condições gerais de atendimento e a situação comum da remuneração dos maltrados doutores que atendem à Saúde da maioria da população brasileira.
Uma lição de vida que vale a pena ser lida, refletida e repercutida.


Amigos:
Vejam cópia do e-mail que mandei para esse deputado que tem
lutado pelo salário mínimo do médico.Repassem para outros colegas.Abçs,
Nilo

Belo Horizonte , 01 de abril de 2009.

Exmo. Sr. Deputado Mauro Nazif:

Gostaria de parabenizá-lo pelos esforços no resgate da dignidade do médico brasileiro.Vossa Excelência bem sabe que os desafios são muitos, gostaria de pontuar alguns. Além do salário mínimo é imprescindível um plano de carreira nacional ou federal para os médicos.A municipalização da saúde embora se justifique pela descentralização é extremamente desvantajosa para o usuário e para o médico.Mesmo tendo o Brasil elevado número de médicos por habitante, várias populações ainda permanecem sem profissionais as assistindo. A
imprensa informa mal a população e diz que "os médicos não querem ir para o interior".Trata-se de uma falácia, o que os médicos não querem é
ir para o interior sem qualquer garantia e submetidos a pressões e chantagens políticas, e depois voltarem para a capital sem clientela,
sem emprego,sem carreira.

Hoje a maioria dos médicos que atendem em prefeituras recebem o honorário da "desonrosa" e na sua maioria são contratados.As prefeituras fazem concursos por que o ministério público exige.Isso é
ótimo para o ministério público que finge estar promovendo a justiça e é ótimo para as prefeituras irresponsáveis, pois realizam o concurso, exibem no edital um salário incompatível, os médicos fazem as provas e pagam inscrições, pois os orgãos de classe e
o ministério público nada fazem para impugnar esses concursos, as prefeituras lucram.Então quando o médico vai tomar posse, geralmente por um salário de R$ 900 a 1200 reais para 20 horas semanais, ele acredita que conseguirá negociar uma carga horária menor e concentrada em um só dia, para obviamente trabalhar em outros serviços e conseguir pagar sua alimentação e moradia.Se o Prefeito quer permitir algum concursado em sua folha de pagamento ou se está muito pressionado pela população que está sem atendimento há meses, ele faz "esse acordo" enquanto aquele profissional lhe interessar.Quando esse profissional fizer qualquer reclamação, ainda que para exigir condições mínimas de trabalho como uma mesa , uma maca , medicamentos, materiais esterelizados e etc., o gestor simplesmente faz a exigência legal do cumprimento da carga horária, e o médico pede demissão para sobreviver, pois com aquele rendimento não conseguirá se manter.Bem, devido a isso , apenas alguns meses após a realização de concursos em prefeituras, esgotam-se os médicos aprovados e excedentes, e a prefeitura pode contratar ,"legalmente ", médicos não concursados e explorá-los também.Geralmente quando chegamos num posto de saúde para trabalhar nesse sistema ou "esquema", encontramos um demanda reprimida de Atendimentos, uma população desesperada, sofrendo com patologias que já poderiam ter sido
facilmente tratadas.Nos submetemos a isso, atendemos 30, 40, 50 ou mais pacientes em um dia de trabalho e quando a demanda reprimida foi
atendida, após 2 ou 3 meses, geralmente um(a) "gerente" do posto de saúde ou pronto-atendimento propõe o cumprimento da carga horária descrita para o cargo e salário, fingindo que nada aconteceu
anteriormente.Sabemos que se trata de uma ilegalidade, mas nos submetemos a isso para sobrevivermos, só não sabemos por que administrações municipais economizam tanto com a saúde, a ponto de cometerem crimes.Mas o pior crime é contra a população que não tem
atendimento, não tem profissionais fixados e compromissados com o serviço, exposta a materiais e estrutura física precários, sem qualquer
fiscalização e com o seu médico assistente também de mãos atadas sem poder questionar, podendo apenas pedir demissão e passar por outra
experiência triste em outro serviço de saúde.

Diante disso, fica fácil entender porque os médicos não se fixam no interior e não se comprometem com determinado serviço de saúde.Ele é obrigado a estar sempre trocando de emprego, fazendo negociações,
aceitando trabalhar em vários pulgueiros ao mesmo tempo para sobreviver.Nas cidades do interior, a chantagem municipal é ainda pior, pois são cidades mais isoladas, distantes uma das outras, com poucas
opções de emprego, onde as vezes prefeitos e vereadores querem que o médico chegue a ponto de discriminar um paciente por ele ser ou mesmo
conhecer alguém da oposição. Como fica o médico que se mudou com sua família para o interior, não tem estabilidade alguma nem qualquer poder
nessa relação de trabalho?Aceita tudo? Desrespeita a vida alheia? A ética ? Tudo? Nessa situação é melhor ficarmos nas regiões metropolitanas, onde mesmo sofrendo tudo isso, ao menos existem várias cidades e serviços de saúde no entorno das capitais onde nos alternamos vulgarmente e fugimos dos abusos maiores.

Mais triste ainda é ver a sociedade enganada, escutando que há "falta de médicos", que o poder público, pobrezinho, não consegue arcar com as despezas da saúde.Há médicos e recursos de sobra, o que acontece é que quando se contrata um médico ele começa a atender doentes, fazer diagnósticos, pedir exames complementares e indicar
medicamentos,cuidados de enfermagem, cirurgias,
fonoaudiologia,fisioterapia, psicoterapia e etc, coisas com as quais quem assume o poder público não quer gastar.Então é muito simples para o corrupto, torna a vida desse profissional um inferno para que ele permaneça atuando somente em momentos que a população chegue ao limite, apagado o incêndio, aí o força a uma demissão, para de gastar com saúde e diz que há falta de profissionais.Para onde vai esse dinheiro?

O extremo do abuso é o estelionato de que nós médicos quando jóvens, ainda adolescentes fomos vítimas.Optamos por uma carreira difícil, com a formação mais longa e intensa entre as graduações, um vestibular terrível, difícil, mesmo para o ingresso nas faculdades particulares, pelo menos até há uns 10 anos atrás.Conscientes de que após a graduação continuaríamos a viver pobremente para cursar a residência médica. Esperávamos ao fim de tudo isso ao menos uma vida dígna e mais respeito. Nos deparamos com essa situação e ainda assistimos às faculdades caça-níqueis despejando vítimas da sua ganância nesse mercado catastrófico. Iludindo os filhos das classes pobre e média baixa com o "sonho de ser doutor", e esses pais se matando e pagando só de mensalidade algo como 3 mil reais acreditando que estão ajudando seus filhos, dando-lhes o melhor.Como pode um Conselho Nacional de Educação permitir esse comércio. Bem , a resposta é simples, eles representam os dono das faculdades caça-níqueis e não o ensino brasileiro.

Finalmente, uma reflexão: Por que ainda não temos uma carreira nacional para os profissionais da saúde e educação, nos moldes do que existe hoje para funcionários do Banco Central, Banco do Brasil, Polícia
Federal, Ministério Público ou Magistratura ? Nessas carreiras e com seus salários e garantias niguém se nega a ir para a fronteira, Amazônia ou pequenas cidades. Talvez seja porque eles lidem com
dinheiro, poder , papéis importantes, né? E nós apenas tratamos dos pobres.


Nilo Edgar Jardim Filho.

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